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Ninguém nasce mulher, torna-se – Poder Judiciário do Estado do Acre

Este é o caso de Ysaboo Couto, mulher trans e servidora do Judiciário acreano há mais de 20 anos

Ysaboo Cassilhas, de 49 anos, estava sentada à mesa, como faz todos os dias no trabalho, quando recebeu a visita de uma equipe de reportagem. Era a segunda, em menos de uma semana, que iria entrevistá-la. A falta de hábito com as câmeras não a intimidou. Prontamente, se dispôs a conversar.

Desta vez, estava mais confortável e confiante. Naquela manhã, tinha posto um de seus vestidos mais bonitos, que contrastava com sua pele branca, o cabelo vermelho e os olhos azuis. O que a preocupava era o tempo. Estava nublado e garoava. Toda sua preparação poderia ir por água abaixo. Mesmo receosa, ela topou sair. Queria que tudo ficasse perfeito.

Debaixo de uma árvore — possivelmente onde havia um ninho de quero-quero (ave popular no Acre), já que vários rondavam —, Ysaboo contou sua história: uma mulher trans que, apesar do preconceito e da intolerância, ultrapassou as estatísticas. Conquistou respeito, emprego e espaço no Judiciário acreano.

Hoje, 29 de janeiro, Dia Nacional da Visibilidade Trans, a Comunicação do TJAC narra a história da primeira servidora transgênero do Poder Judiciário do Acre, que há mais de 20 anos atua no setor de cartórios da 3ª Vara Criminal da Comarca de Rio Branco (à época, quando ingressou, 4ª Vara).

“A figura feminina era uma necessidade”

O processo de transição ocorreu de forma gradual, marcado por avanços e retrocessos. A mudança efetiva começou quando ingressou no tribunal. “Foi mais ou menos em 2005. Eu já tinha cabelo grande, pintado de vermelho, e usava unhas pintadas. Mesclava roupas masculinas com femininas, criando uma aparência andrógina. Aos poucos, fui me reconhecendo”, relata.

Já o nome “Ysaboo”, ela foi buscar inspiração na arte, assim como outras mulheres trans. A referência veio do filme Feitiço de Áquila, que assistia muito na infância, protagonizado por Michelle Pfeiffer. A história da personagem lhe inspirou. “Sofre uma maldição. Ela e o seu grande amor da vida, mesmo assim, se mantêm fiéis um ao outro, apesar de toda a dificuldade. Cuidaram um do outro. Então, [o nome] Ysaboo veio me ensinar sobre cuidado, ética, lealdade e amor próprio”, afirma.

Agora, reconhece: assumir a figura feminina era uma necessidade. Estava cansada de não se ver no espelho como realmente se enxergava. Após a transição, sente-se dentro do papel social que a ela sempre coube, mas que por anos não exerceu. Vive feliz e confortável com o corpo e a identidade que construiu. Sabe que ninguém nasce mulher, torna-se.

“Existe uma pergunta que circula no Facebook há muito tempo: ‘Se a sua criança interior encontrasse você hoje, ela teria orgulho ou vergonha?’. Sempre penso que, se a minha criança — que passou por tanta dificuldade e violência — me encontrasse hoje, ficaria muito feliz. Tenho certeza”, declara.

“Tive que criar meus próprios mecanismos para me encontrar”

Para alcançar a identidade que tanto sonhava, Ysaboo enfrentou uma jornada marcada por dúvidas, inseguranças e preconceito. Somente aos 23 anos, já na faculdade, quando pôde viajar sozinha pela primeira vez, teve a oportunidade de vivenciar novas experiências e conhecer mais sobre a transexualidade.

“Minha infância e adolescência foram muito difíceis. Não existia nenhum referencial do que era ser uma mulher trans ou um homem trans. Eu não sabia o que eu era. Tive que criar meus próprios mecanismos para me encontrar”, recorda.

Somado a isso, ela enfrentou a extrema pobreza, por vir de uma família muito humilde, e a discriminação por ser, à época, considerada gay devido à aparência. “Foi um período muito difícil da minha vida. Só começou a melhorar quando consegui meu primeiro emprego”, relembra.

Mesmo após ingressar no tribunal, em 2005, não ficou imune aos olhares curiosos. “As pessoas não estavam preparadas. Havia curiosidade, comentários quando eu passava. Foi difícil e, ao mesmo tempo, muito bom, porque me ensinou a ter mais autoestima e amor próprio”, assegura.

“Sou exatamente aquilo que eu queria me tornar”

Hoje, Ysaboo olha para a própria trajetória com orgulho, especialmente por integrar o quadro de profissionais do Poder Judiciário. Para ela, a conquista representa uma vitória diante das fases difíceis que enfrentou e conseguiu superar.

“Fiz o ensino fundamental, o médio, o superior e ainda passei em concurso público — coisas que muitas meninas trans acabam abandonando por causa da violência e do preconceito. Para mim, são grandes vitórias. A relação com a minha família hoje é tranquila”, conta. O ambiente de trabalho também se transformou ao longo dos anos e atualmente é marcado por respeito e tolerância. “Minha equipe sempre foi muito especial. Sou uma pessoa normal, trabalhando normalmente”, garante.

Ao falar sobre a importância do Dia Nacional da Visibilidade Trans, Ysaboo destaca o papel da data no reconhecimento da diversidade de gênero. “Ela é importante porque traz visibilidade para quem tenta negar nossa existência. O fato de você não gostar ou não concordar não exclui as pessoas trans. O preconceito não nos apaga. A visibilidade trans é o momento em que dizemos à sociedade: nós existimos”.

Para o futuro, sonha com paz, crescimento pessoal e profissional e, quem sabe, um novo amor. Aos mais jovens, deixa um conselho: “Para ter liberdade, dignidade, segurança e espaço na sociedade, a primeira coisa é ter um emprego, uma fonte de renda”. Ela também incentiva os estudos: “Hoje, o cenário não é apenas de preconceito, mas também de desinformação. Muitas pessoas trans sofrem porque não conhecem seus direitos.”

Ysaboo Cassilhas é uma mulher realizada e feliz, apesar do histórico pessoal, marcado pelo preconceito e pela violência. “Sou exatamente aquilo que eu queria me tornar. Conquistei a imagem que eu realmente gostaria que refletisse no espelho”, conclui.

Fotos: Gleilson Miranda/Secom TJAC

Lembre-se

Transfobia é crime no Brasil. Desde 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) equiparou a discriminação e a violência contra pessoas trans ao crime de racismo, com base na Lei n.º 7.716/1989.

Assista ao vídeo dessa entrevista com Ysaboo Couto no Instagram do Tribunal de Justiça do Acre