Neste Dia da Justiça, 8 de dezembro, conheça um pedaço da história da primeira secretária do Tribunal de Justiça do Acre (TJAC)
Neste 8 de dezembro, marcado como Dia da Justiça, a história da primeira secretária judiciária do Tribunal de Justiça do Acre, Maria da Silva Lopes Gonçalves — que escreveu a ata de instalação do órgão há mais de 62 anos e está prestes a completar 91 anos — comprova que, além de firmeza, compromisso, retidão e defesa dos direitos, a Justiça também é feita de saudades, ternura, dedicação e pessoas; muitas pessoas que dedicaram e ainda dedicam a vida para garantir esse serviço público.
Ao visitar o Tribunal de Justiça do Acre (TJAC) no final de novembro, acompanhada do sobrinho Narciso Cândido Lima Neto, servidor da Procuradoria-Geral do Município de Rio Branco, Maria, que hoje caminha com o auxílio de uma bengala por causa de um problema no joelho, mantém uma postura ereta, um porte elegante e fala com a dicção e o vozeirão de uma locutora de rádio. Chegou à sede da instituição já se queixando: “Imagina se eu vou lá no Tribunal, o pessoal vai querer que eu fale alguma coisa e eu vou não querer falar nada”. Mas, para nossa sorte, ela falou um bocado sobre sua vida, uma história entrelaçada à do Estado e à do próprio Judiciário acreano.

Primeiras eleições diretas
Nascida em Tarauacá, mudou-se para a capital para estudar e trabalhar. Com a indicação da madrinha e do padrinho, conseguiu um emprego no governo e buscou provar seu valor com dedicação e compromisso. Ela não se recorda exatamente a idade que tinha na época, apenas diz que era muito jovem. Mas repetiu de cor o que o governador da época, coronel Fontenelle, disse ao olhar para ela: “Mas ela é uma menina, Arnaldo!”.
Trabalhou no governo por cerca de quatro anos até ser designada para atuar no secretariado, ajudando na contabilização dos votos das primeiras eleições diretas ocorridas no Estado recém-criado. Contou que torcia por José Guiomard, mas o vencedor foi outro candidato: José Augusto de Araújo, primeiro governador do Acre eleito democraticamente e deposto pelo golpe militar de 1964.
“Pois é, o Zé Augusto ficava lá em cima, no Plenário, o tempo todo enchendo o saco, porque eu estava torcendo pelo Guiomard. Aí, quando saíam os votos dele, ele chamava ‘Maria’, mandava beijo e me dava tchau. Era uma raiva que eu tinha! Mas, quando terminou a eleição e ele ganhou, veio e me deu um abraço”, relembra Maria.

Julgar com humanidade
A servidora aposentada continua o relato e narra como se emocionou quando teve que coletar o depoimento do governador José Augusto:
“E lá aconteceu essa desgraça toda com ele. Gente, eu chorei tanto, como se fosse uma pessoa minha. Ele preso. Eu já era secretária do Tribunal e recebi a ordem: ‘Maria, a gente tem que preparar um ofício convidando ele para vir dar o depoimento dele’. Quando chega o Zé Augusto com dois guardas, barbado… Ai… Eu saí chorando… Ele barbado, eu não me conformava de ver aquela criatura daquele jeito. Eu que ia datilografar o depoimento dele. Não aguentei, aí tinha um quartinho, eu entrei para lá me acabando de chorar, o pessoal ficou me procurando. O doutor Paulo perguntando por mim, me acharam e viram que eu não tinha condições e me substituíram”.
O pilar da seriedade e do compromisso com as normas legais é a face mais conhecida da Justiça. Mas outro fundamento do Judiciário é manter a humanidade nos julgamentos, mesmo que isso signifique se emocionar, como aconteceu com Maria ao ver sofrendo alguém que aprendeu a admirar.
Solidariedade e escuta
Outra característica do Judiciário que a história de Maria revela é a solidariedade. Ela precisou se afastar do trabalho para acompanhar a mãe em um tratamento contra o câncer no Rio de Janeiro e, durante todo esse processo difícil, recebeu apoio e acolhimento. Antes de ser transferida para o estado carioca, sua mãe ficou internada na maternidade, e Maria recorda com carinho a rede de apoio formada pelas colegas de trabalho e pelos doutores Portugal e Ithamar — os desembargadores José Lourenço Portugal e Paulo Ithamar Teixeira — ambos integrantes da primeira composição do TJAC, em 1963.
“O doutor Portugal ia lá na maternidade com uma sacolinha de maçã para levar para mamãe. Ele sempre ia levar fruta para mamãe. Eu não esqueci disso. E as meninas do Tribunal, a Cecília, a Maria Lúcia… quando eu menos esperava, chegavam lá para dormir, pode isso? Para eu ir para casa descansar… E lá no Rio era o doutor Paulo Ithamar, que ia no prédio saber como nós estávamos. Eu descia, via a cabecinha branca dele… Ele estava aposentado já e morava lá no Rio”, lembrou Maria.


Justiça são as pessoas
Doutor Zaire, Strano, Araken… Ao mencionar essas personalidades jurídicas, Maria não apenas registra nomes importantes da história do Judiciário acreano; ela devolve humanidade a cada um deles. Pelas memórias da primeira secretária do Tribunal de Justiça do Acre, é possível imaginá-los caminhando pelos corredores do Palácio da Justiça com processos nos braços, tomando um cafezinho na copa, comentando sobre o calor úmido que a chuva do meio-dia deixou no ar.
Os relatos de Maria revelam que a Justiça também é feita pelas pessoas — aquelas que dedicaram vida, trabalho, lágrimas e alegrias para construir o Poder Judiciário no Acre. A cada sentença, a cada decisão, a cada serviço prestado, elas ajudaram a erguer a instituição que hoje continua a servir a sociedade. E, ao revisitar essa trajetória, Maria expressa apenas gratidão.
“Eu só tenho coisas boas para contar da minha vida. Tem gente que só tem coisa ruim, mas eu só tenho coisas boas. Quando me aposentei, não podia nem olhar para esse Tribunal. Passei muitos anos longe daqui. Eu fui muito feliz no Tribunal”, emociona-se.



Fotos: Gleilson Miranda/Secom TJAC e acervo pessoal